sábado, 23 de agosto de 2014

A linha do horizonte...

Olhos curiosos, quase infantis. Pela janela do ônibus, vejo passar as casas (sempre com um jardim e muitas árvores), os prédios (tão altos), o parque (tão verde)... Levanto a cabeça para o céu: uma infinidade de azul... O sol sorri malandro, certo de sua majestade. Ele quase não aparece por aqui e quando acontece, é recebido com todas as honras. 
São quase seis horas da tarde e estou à caminho do trabalho. Observo atentamente os canteiros de flores espalhados pela cidade e os ipês colorindo o chão. 
No banco ao meu lado, uma menininha morena, de cabelo cacheado (atado como rabo de cavalo), cantarola baixinho. Ela é gordinha e está vestida com um uniforme escolar. Por debaixo da saia-shorts, uma legging preta. Parece uma mocinha. Acho dengosa. Sorrio. Ela percebe a minha contemplação e sorri também. Continua sua canção, agora ciente que possui uma plateia. 
Olho para fora do coletivo. A noite, com seu manto escuro, começa a cobrir o céu. O sol se despede. É uma celebridade. Os raios produzem um clarão intenso, como flashes de câmeras fotográficas. 
Sinto-me feliz. Imensamente feliz. E esqueço, por alguns minutos, dos mendigos sentados nos bancos das praças, da aglomeração nas paradas de ônibus, da frieza desta gente que não responde ao "boa noite" que insisto em dar. Desajeitadamente, em pensamento, recrio Manuel Bandeira: que importa o beco, se o que vejo é a paisagem, a glória, a baía, a linha do horizonte?




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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)