domingo, 30 de março de 2014

A linguagem e a temática de Nassar em Lavoura Arcaica


Michele Pupo¹

Lavoura Arcaica² é o livro que marca a estréia de Raduan Nassar no campo da Literatura.
Dividido em duas partes ( A partida e O retorno), a obra trata da imprevisibilidade da condição humana com todos os seus conflitos.
O protagonista é André,  jovem do meio rural, que asfixiado pelas pressões religiosas, tradicionais e patriarcais da família, resolve fugir para outra cidade, ainda do interior.
Este acontecimento causa um desequilíbrio na vida desta família impregnada de regras de caráter bíblico (baseada nos 10 mandamentos). O personagem mais atingido é o pai, homem de figura austera e religiosa, que inconformado com a fuga, pede ao filho mais velho, Pedro, que parte em busca do irmão.
Ao chegar, Pedro encontra André nu e embriagado em um quarto de pensão e após inúmeros apelos consegue convencê-lo a retornar para casa.
A volta de André traz uma aparente, porém falsa paz aos membros da família. Logo, começam a ficar evidentes os comportamentos doentios das pessoas da casa.
     Lula, o filho caçula, pretende seguir o exemplo do irmão André e planeja uma fuga.
            Além disso, há ainda a sensual Ana, a filha que será o pivô da queda da família. Seu porte sensual, e sua figura mediterrânea provocam em André  um misto de desejo e admiração.
O pai, ao perceber este relacionamento incestuoso (imaginário ou carnal) de Ana com André, comete uma tragédia: mata a filha e posteriormente se mata.
E é daí que advém o título da obra, as palavras do pai, originadas dos sermões bíblicos, dos grandes pregadores cristãos, plenas de dogmas referentes ao amor, a união e ao trabalho familiar, tornam-se ineficazes.
A família é comparada por Nassar a uma lavoura cujas sementes são improdutivas e os métodos de preparação dos terrenos são antiquados.
Ao inverter a parábola bíblica do filho pródigo, o autor cria um estilo dos mais elevados, num fluxo mais próximo da realidade humana.
Quando narra a volta de André ao lar, o escritor faz questão de relatar os pensamentos de corrupção do personagem, o sentimento de pecado e aflição que atormenta a alma do protagonista:

Me passava também pela cabeça o esforço de Pedro para esconder de todos a sua dor (... ) Ele não poderia deixar transparecer, ao anunciar a minha volta, que era um possuído que retornava com ele a casa; ele precisaria dissimular muito para não estragar a alegria e o júbilo nos olhos de meu pai, que dali a pouco haveria de proclamar para todos que o cercavam que “aquele que tinha se perdido tornou ao lar, aquele pelo qual chorávamos nos foi devolvido”. (p:144)

A religiosidade e os tópicos de conduta tão proclamados pelo chefe da família são  logo desmascarados  através do comportamento de cada membro.
Além disso, a figura do pai representa a hierarquia dentro da casa, a autoridade, a tradição arcaica de que o homem é superior a mulher.
Quando descreve a posição de cada pessoa à mesa nas horas das refeições familiares, o narrador  a compara com uma árvore. Do lado direito da mesa, sentava-se o pai (à cabeceira), em seguida, o filho mais velho e as outras três irmãs, por ordem de idade. Do outro lado, sentava-se a mãe, André, Ana e Lula.

O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes, já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se minha mãe, que era por onde começava esse segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, um enxerto junto ao tronco talvez funesto, pela carga de afeto (...) podia-se  dizer que a distribuição dos lugares na mesa definia as duas linhas da família. (p:151)

O pai é visto como o tronco, a raiz da família e a mãe como a produtora das sementes corrompidas.
Só pela temática deste romance de Raduan Nassar, poderíamos considerar-lo como digno da admiração do público leitor. Sua obra apresenta uma alta carga crítica com relação a valores que, até algum tempo atrás, eram dominantes em nossa sociedade.
Ao parafrasear o texto bíblico e inverter a parábola do filho pródigo, Nassar anuncia a quebra das estruturas familiares do passado (tradicionalismo, patriarquismo), proclama o ingresso da mulher ao mercado de trabalho e aplaude as mudanças ocorridas na Igreja Católica.
 No entanto, a elegância do texto não pára por aí. Com uma linguagem extremamente original, superada apenas por grandes autores da moderna prosa brasileira (como Guimarães Rosa, por exemplo) e uma sintaxe surpreendente, Nassar mostra toda a beleza deste seu primeiro romance.
Ao optar por uma narrativa que não respeita os sinais de pontuação tradicionais, o autor consegue reproduzir um fluxo de consciência surpreendente e expressar de maneira completa o ritmo do pensamento humano, com passagens de sentido incompleto, confuso, não linear.
Esta estratégia possibilita ao escritor mesclar um fato presente com um passado sem deixar que o leitor perca o sentido do texto.
É evidente que esta não é uma característica individual deste autor, porém o uso que ele faz desta tática realça a sua composição literária e acabam por tornar o texto mais atraente.
Por todas estas razões, acredito que este livro de Nassar pode ser enquadrado como um dos grandes de nossa literatura, com uma autêntica carga qualificadora.

¹   Professora, escritora e revisora de textos.
              ²  NASSAR, Raduan. Lavoura Arcaica. Livraria José Olympio Editora. Rio de Janeiro: 1975.



Um comentário:

  1. Já li algo de Raduan Nassar há vários anos (contos, se não me engano) e gostei bastante das sutilezas das metáforas. Não conhecia esse livro que vc resenhou, mas a temática parece muito interessante! Vou procurar por ele!
    Beijo

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