terça-feira, 4 de junho de 2013

Mas...

Eu estava na quinta ou sexta série quando a professora explicou pela primeira vez: 
- "Mas" é conjunção adversativa que pode ser substituída, sem prejuízo de sentido, por contudo, entretanto, todavia, porém...
Aprendi rápido. 
Para mim, mas nunca foi mais.
Aos 16 anos, eu queria ser psicóloga. Mas, contudo, entretanto, todavia, não pude. Na cidade interiorana em que morava, não existia faculdade de psicologia. Minha mãe, mulher de fibra, sentenciou: "Não vai. Filha minha não mora sozinha em outra cidade. Vai para estudar, acaba se perdendo."
 Até tentei insistir:
- Mas...
Não adiantou bater o pé. Com a matriarca não tinha nem mais nem menos.
Fiz-me acadêmica de letras. A palavra, antiga companheira, acabou por despertar em mim o desejo de lecionar. 
O trabalho era bom. Literatura é fonte inesgotável de prazer. Mas, contudo, entretanto, todavia, o ordenado era miserável e a jornada extensa. 
Desisti.
Ela (a conjunção), entretanto (sem trocadilho), continuou imponente, majestosa, zombeteira, me fazendo lembrar, com rancor, de "Isso ou aquilo" de Cecília ( a Meireles).
"É uma grande pena" haver tantas ressalvas na vida de uma pessoa. 
Sonho com o dia em que não seja mais preciso abrir mão de uma coisa para ser ou ter outra. 
Neste dia, todas as mocinhas serão livres para mudar de cidade, escolher sua profissão, transar sem camisinha ou mesmo tomar banho e sair no vento sem escutar de seus tutores:
- Você pode, mas...

MAS isso já é utopia e o melhor é me conformar. 

Michele Pupo é graduada em Letras e especialista em literatura.
Autora dos livros "Meus Devaneios" e "Vastas emoções, vagas promessas"


8 comentários:

  1. Acho que você fez o curso certo já que, ao meu ver, tem o dom das palavras. Mais um super texto. =D

    Meu pai também não queria que eu mudasse de cidade. Mas, eu não bati o pé e fui (quer dizer vim). Rsrsrrs

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    1. Pri

      Eu sempre gostei de ler e a escrita veio como consequência. :)
      Hoje, acho que meus pais agiram certo. rsrs

      Um abraço

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  2. Eu sou #desses que acha que a gente pode tudo. Menos se conformar... hehehe! Querida Michele, gracias pelas felicitações!!! Estava com saudades da tua presença!!! Beijão e boa semana!

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  3. O problema maior não está nos filhos dessa gente que os cercam de cuidados, mas, contudo, entretando, todavia, está nos que estão de fora. Esse não sabemos de onde vieram, rs. Parabéns pelo texto e pela mamãe, beijos.

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    1. Djalma

      Tem razão. Meus pais sempre foram super-protetores e hoje até concordo com eles.

      Um abraço

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  4. Olá Michele, vim retribuir sua visita em meu blog e conhecer você melhor. Adorei seu texto! Virei mais vezes,

    bjs

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    1. Fabi

      Obrigado. Você é muito bem-vinda.

      Um abraço

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)