quarta-feira, 29 de maio de 2013

Idiossincrasia

Fui criada de acordo com princípios bíblicos e protestantes, em uma família tradicional- no sentido literal da palavra e desde muito cedo foi me ensinado que neste mundão de Deus, haveria sempre o duelo entre o "certo" e o "errado", o "bem" e o "mal", o "bom" e o "malvado". 

Durante minha infância e adolescência, recebi muitos "nãos" e fui proibida de realizar muitas das coisas que meus amigos praticavam. 

Ir à festinhas, churrascos, cinema,  vestir calças compridas e CORTAR O CABELO estavam entre as restrições.
Durante duas décadas da minha vida ostentei longos fios que desciam pelos quadris, cobriam as nádegas e por pouco não chegavam à batata da perna. 
Cresci em meio a inúmeros conflitos interiores, de acordo com a dualidade que me foi apresentada, com a luta entre o que meus pais me ensinaram e o que o mundo/as pessoas me mostravam.
Hoje, não frequento a Igreja. Não por tudo o que me foi dito, nem pelo que tentaram me colocar na cabeça, mas por convicções próprias.
Deixei de seguir os preceitos doutrinários e a tesoura foi meu alvará para ser quem eu quisesse.
Desde então, sinto a necessidade de renovar o corte de cabelo constantemente. É o atestado de desprendimento de tudo que amarra, atrasa, impõe. 
Cortar o cabelo me liberta!
O gaúcho Everton Maciel disparou certa vez: "Mulher de cabelo curto diz o seguinte: eu tenho minha autoestima no lugar e não preciso de nada que venha de você. Ela não precisa daquela sensação pré-civilizatória de ser puxada pelos cabelos por um hominídeo com tacape na mão".

É exatamente isso.
Não aceito mais ordens.
Não comungo com mais nada que reprime.
Sou livre e com o meu cabelo faço o que eu quiser.




Michele Pupo é graduada em Letras e especialista em literatura.
Autora do livro de poemas "Meus Devaneios " 
e do romance  "Vastas emoções, vagas promessas"


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