quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Traição

Tinha oito anos e um vizinho de quatorze, bonito.
A diferença de idade não era empecilho para as guerrinhas de mamona, a colheita de abacate nas árvores do quintal e para as disputas futebolísticas realizadas ali mesmo, em frente de casa.
Iam juntos à escola, de mãos dadas. Para ela, puro prazer. Para ele, uma responsabilidade: evitar que ela atravessasse a rua sozinha e fosse esmagada por um carro desgovernado. 
Um dia, o desapontamento. 
Ela chegou da rua correndo, já chamando por ele.
Um ou dois gritos e nada.
De repente, ela viu.
Ele...
...e uma moça loira.
Ele e uma moça loira, de mãos dadas.
Do alto dos seus oito anos, foi tomada por uma baita raiva infantil. Pensou em disparar impropérios como "bobo", "feio" ou em berrar  histericamente um "NãoGostoMaisDeVocê", enquanto jogava areia na menina loira. 
Mas, por uma questão de dignidade, preferiu voltar correndo, com o choro preso na garganta. Ainda teve tempo de ouvir:
- Está sentindo alguma coisa? O que você tem?
Não tenho nada, não tenho nada - a braveza crescendo por dentro. 
Mas tinha.
Foi assim que nasceu, prematuramente, sua primeira frustração amorosa.
Foi assim também que aprendeu a desconfiar da honestidade do sexo oposto.

4 comentários:

  1. Muito boa.
    Mas eu jogaria mamona na cabeça deles..... e de estilingue.

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  2. A... Que raiva!!!! Senti até minhas bochechas esquentarem!!!! Dói! Como dói! E nao consigo desconfiar, me jogo de cabeça e costumo me machucar....

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    Respostas
    1. Uma história inventada, mas que poderia ser real. haha

      Bjs

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)