segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Pedintes e pidões

Recentemente, algumas situações do cotidiano me fizeram, ao mesmo tempo, rir, lamentar e refletir. 
A primeira delas foi em um passeio pelo parque com meu namorado. Avistamos um pipoqueiro e eu, eterna criança, ao ver os grãos estourarem olorosos, direcionei nossos passos até lá. Pedimos dois pacotinhos pequenos e nos assustamos com o resultado:
- R$8,00.
Caramba! Com este valor poderíamos adquirir no supermercado até 3 embalagens e teríamos pipoca por muito tempo, talvez meses.... 
Pensei em argumentar, sorrindo tristemente, que não estávamos comprando o carrinho. Só queríamos 2 pacotes pequenos. 
Observamos e percebemos que em menos de 5 minutos outros 7 fardinhos, além dos nossos, foram vendidos (O que equivale, em reais, a 36).
Trinta e seis reais que eu, professora em uma escola particular da cidade, levo mais de 3 horas para merecer ganhá-los. Trinta e seis reais que meu namorado, terapeuta em instituições de saúde mental, leva mais de 3 atendimentos para conquistá-los. Trinta e seis reais, que ambos, pós-graduados, levamos mais de 25 anos de estudos e  dois diplomas para poder merecê-los.
Outro dia, ainda não recuperados do susto (mas infelizmente famintos) resolvemos almoçar em um restaurante neste mesmo parque. Três porções pequenas, dois sucos e a gorjeta para a garçonete e lá se foram mais 55 suados dinheirinhos.
Como se não bastasse, nas semanas seguintes fomos abordados por um incontável número de pessoas que nos pediram, com caras de dar pena, " uma esmolinha pelo amor de Deus, uma esmolinha por caridade".
Meu namorado, espirituoso, brincou que do jeito que a coisa anda, para podermos atender a todos que nos procuram, precisaríamos ser milionários filantropos. E para atender nossas necessidades básicas de sobrevivência, já bastaria sermos pipoqueiros.
Refletindo a respeito, pensei que talvez o melhor seja me transformar em uma pidona em potencial.
É o que todos parecem estar fazendo.
É o que tenho feito.
Para o coquetel do lançamento do meu livro, pedi doações dos frisantes.
No cinema, compro duas meia-entradas com uma carteirinha.
Para a empresa de transporte que me leva até a capital para ver meu namorado, encaminhei e-mail solicitando desconto na compra das passagens.

{ Isso me fez lembrar do filho mais velho de uma amiga.
Certo dia ela o pegou estapeando o irmão menor:
- O que é isso, menino?!
"Vocês me batem, eu bato nele", foi a resposta do garoto.}

Pelo visto, no Brasil, é assim que a coisa funciona.





2 comentários:

  1. Outro dia um "cliente" me pediu uma informação.
    Avisei que para informá-lo eu teria que ter uma amostra do material e fazer um laudo.

    Ele me disse :

    - Não precisa disso, é só você dizer se é ou não é.

    - Então, para eu te dizer se É ou não É eu estudei 8 anos, abri um laboratório, pago impostos e o meu parecer custa tanto.

    E assim a roda gira.

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)