sábado, 27 de outubro de 2012

Da árvore e dos seus frutos...

Antes de me tornar professora, eu fui secretária. Mas antes de ser secretária, eu trabalhei como babá. Na época, eu contava apenas 15 anos. Era tímida, desviava o olhar quando encarada de frente, tinha pânico de comparecer a eventos sociais. 
Contudo, possuía um não-sei-o-quê que cativava as crianças. Ao lado delas, eu me tornava a menina travessa que corria no quintal, brincava de bonecas e contava histórias. 
Foi nesta época que conheci a A., então com 4 anos. Era uma menininha gordinha, risonha, muito querida. Em meu primeiro dia de trabalho, ouvi de uma vizinha:
- Ninguém suporta esta menina. Ela é terrível!
Suportei. Quero dizer: me afeiçoei a ela. 
Em pouco tempo, sentia por ela o mesmo carinho que sentiria por uma irmã menor. A convivência acabou por deixar nela marcas profundas da minha personalidade e gostos, como por exemplo o jeito desligado e trapalhão, a ironia escrachada, a paixão pelos livros. 
Hoje, passados quase 12 anos, nos sentamos para trocar confidências. Nossa relação ultrapassou as barreiras profissionais. Sou sua professora, mas sou também, sobretudo, sua amiga. E qual não foi minha felicidade ao ouvir de sua boca o enredo de um belíssimo romance que ela está escrevendo. 
É a história de uma moça que se apaixona sem saber por quem ou pelo quê, até que se dá conta que está enfeitiçada pela Literatura ( elemento que será personificado através da imagem de diversos autores brasileiros).
Achei criativo. Achei fantástico. E me senti orgulhosa, pois fui informada de que sou a responsável por despertar nela esta paixão pela Literatura.
Senti-me como um colono que durante muito tempo cultiva a terra, plantando e molhando suas mudas, até que um dia encontra a árvore repleta de frutos- que é o resultado do seu trabalho.
Que sejam doces, sempre. 

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)