quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Do que me faz continuar...

Quando era ainda uma acadêmica, fiz uma promessa a mim mesma. Foi em um dia em que assisti a uma aula de uma destas professoras em fim de carreira, que esperam somente pela aposentadoria. 
A mulher não tinha ânimo nem para levantar da cadeira. Eu, enquanto estagiária, observava atenta a sua postura e a forma revoltada como tratava seus alunos. Nesta tarde, jurei que o dia em que ministrar aulas me fosse um peso, eu abandonaria tudo, nem que fosse para vender sorvete no portão do Colégio. 
E é o que penso todos os dias quando piso em um sala de aula. Também lembro da paixão com que preparei meu primeiro planejamento e de como meu coração batia quando segurei o giz e os livros de chamada pela primeira vez.
Isso me faz continuar. 
Acredito que enquanto a grande maioria dos professores continuar a considerar a sua profissão como algo desprovido de sentido ou como um sacrifício sem tamanho, a educação brasileira continuará a ser esta pedra no caminho.  
Sabemos que os conflitos, as dificuldades e os problemas realmente existem, no entanto, todos temos a oportunidade de buscar um caminho que consideramos melhor. De professores insatisfeitos e descrentes, as escolas já estão cheias. E a meu ver, esta não é a solução. 

Hoje, algumas situações me fizeram parar, refletir e recuperar o fôlego.
Vamos a elas:

1. O aluno sabichão 

Tem 15 anos e pensa que já sabe tudo da vida. É arrogante, testa o conhecimento dos professores e  debocha de tudo e todos. 
Contudo, me parece extremamente inteligente. E com muito potencial. Depois de alguns meses batendo de frente com ele, resolvi ter uma conversa hoje. 
Iniciei elogiando-o. Disse o quanto acreditava nele e que tenho certeza de que irá longe, mas que desaprecio seu comportamento imodesto. Contei-lhe toda a minha história e de como cheguei a uma sala de aula. Disse-lhe a minha idade e falei-lhe que de meus 27 anos, 21 foram dentro de Instituições de ensino. Tentei, mostrar-lhe, que mereço respeito, não somente por minha formação, mas sobretudo, pela forma como trato meus alunos. Pedi-lhe que a partir de hoje, pudéssemos ter uma relação de respeito mútuo e não de hierarquia. Disse-lhe que valorizo o conhecimento dele e que o admiro, porém a admiração seria maior se houvesse humildade e educação por parte de ambos. 
Pediu-me desculpas. Pedi-lhe desculpas. 
Se resolveu? Não sei. Ainda vou descobrir. Mas me senti feliz com isso. E mais leve também...

2. O aluno carinhoso


Última aula do dia. Entrei cansada. Mas fui surpreendida com a recepção de um aluno. Com o sorriso de orelha a orelha, me entregou um chaveirinho, dizendo:

- Um presente para a melhor professora do mundo! O chaveiro lembra a senhora!

Perguntei o porquê e brinquei dizendo que sabia que o cabelo estava feio, mas chamar de BOMBRIL era demais! 
Eles (a  turma) riram, e ele  respondeu:

- Não, profeeeeeee! É porque tem 1001 utilidades!

Agradeci. Abracei. E ganhei o dia. 

3. O "terror" de aluno 

Lembram do "Terrorzinho"? Pois é. A cada dia fico mais próxima dele e confesso que contrariando a todos os meus colegas, eu gosto muito dele. Primeiro por sua triste história. Segundo por sua carência. E finalmente, porque percebo que a essência dele é boa. 
Mas vamos ao fato de hoje. Eu tenho mania de chamar meus alunos de "meu filho/ minha filha". É uma maneira de demonstrar carinho. Também porque me acredito um pouco mãe de cada um deles. Afinal, é comigo que passam grande parte do dia. É para mim que contam seus problemas, aflições e que pedem ajuda. Sou eu quem lhes ensina valores. 
Hoje, coloquei uma cadeira e sentei ao lado do T. para ajudar-lhe com uma atividade. E disse-lhe:
- Vamos lá, meu filho! 
Se vocês vissem os olhos com que ele me olhou!!!!!!!!!!!! Ficou deslumbrado, feliz, encantado com o tratamento! E me deu um beijo no rosto. Eu me assustei e corei. No embaraço, acabei falando:
- O que é isso, T.?!
- Ué, não posso te dar um beijo, profe?!
Gaguejei qualquer coisa confusa, enquanto a turma o chamava de "puxa saco" e outros termos do gênero. 
E eu entendi que faço diferença na vida dele e que meu carinho é importante.

Isso tudo me faz continuar. 
É por isso tudo, que eu ouso continuar. 

Educação é uma coisa séria!


2 comentários:

  1. Que lindo! Me deu ainda mais vontade e coragem para continuar trilhando o caminho que escolhi, o magistério. Um dia, se tudo der certo , darei aulas na faculdade de direito. Obrigada!!! É muito importante para mim, especialmente nesse momento de insatisfação de tantos professores, ver alguém defendendo a mais bonita das profissões! Beijos !!!

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    1. Emocionante.

      Deve faltar tanto carinho para ele.....

      Adorava dar aulas!

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)