segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Com elas, síntaxe à vontade.

Era muito pequena quando comecei a me relacionar com elas. As primeiras vezes foram tímidas, com solavancos e interrupções. 
Durante a adolescência, passamos quase todo o tempo juntas. Elas me seguiam ao colégio e à casa das amigas, mas era no meu quarto que me faziam verdadeira companhia.
Se no início eram acanhadas, com o passar dos anos, tornaram-se travessas e espontâneas. Faziam-me rir, emocionavam-me, agitavam minha curiosidade...
Certa vez, minha mãe, ao abrir a porta repentinamente, me pegou em "uns" prantos que tratei logo de disfarçar com a desculpa de uma alergia. Em outra ocasião, quando já me nasciam inquietações de outra ordem, fui surpreendida novamente. Ah se meus pais soubessem o que, já naquela época, me ensinavam! Lancei-as para trás do guarda-roupas, assustada. E desde então, as venho tratando como velhas amantes. 
Deleito-me ao vê-las roçar a minha língua. Sinto um prazer imensurável quando, pela madrugada, me visitam , fazendo-me levantar da cama com o corpo ainda quente e debruçar-me sobre elas.
Delicio-me quando as vejo nos lábios de outros. Meus olhos, ouvidos, boca, mãos e sentido lhes pertencem.
Elas me guiam, me iluminam, arrancam meus monstros, revelam minha afeição ou revolta.
Palavras.
Nas tortas linhas de Saramago, nos labirintos de Borges, nos amores de Neruda e nos sonhos de Galeano: caminho, descanso e recrio. 
Busco um lugar ao sol e já não sou mais a Clarice das nuvens carregadas, sou a Clarissa cheia de luz, a menina que é música e poesia, que tem os olhos bem abertos para o mistério da vida.
Por vezes, sou a moça dos olhos oblíquos e dissimulados, cintura atada a um vestido de chita. Em outras, faço-me a "Senhora" de Alencar, dividida entre o amor e o ódio, entre a paixão e o desprezo... Sou tantas e em todas me reconheço.
Penetro no mundo das palavras como Drummond, "surdamente", mas não é silêncio que ouço...
Nos meus livros, as chaves, as respostas... Em cada linha, uma viagem... 
Traduzir-me, como Gullar, fingir como Pessoa, cantar como Cecília. 
Meu sonho e utopia. Possíveis, eu diria.


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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)