sexta-feira, 6 de abril de 2012

Mel e sangue

Por Michele Pupo

"Ela não pertence a este mundo" - o amigo falou e todos riram. Ela riu também, mas durante o resto da noite as palavras ficaram ecoando provocativas em sua cabeça. Achou que foram malvadas. Ele não devia ter dito isso. Se soubessem como ela andava por estes dias, evitariam colocá-la no centro das conversas e atenções.
Este ultimo pensamento a fez lembrar de uma música de Zeca Baleiro, sorriu de maneira triste e íntima. Era isso... andava "tão à flor da pele... barco sem rumo, sem prumo...sem vela".
Com a cabeça sempre nas nuvens, esperando ser abduzida para sempre deste mundo sujo e imoral.
 O amigo estava certo, ela não tinha parte com nada daqui.
Ontem mesmo, enquanto tentava fazer coisas normais, entrou em uma loja para escolher roupas novas. Provou cinco ou seis peças e pela primeira vez na vida gostou de todas. Mas antes de sair da loja, deu uma trombada com a vendedora e derrubou todas as peças no chão. Pediu desculpas, dizendo que estava com a cabeça no mundo da Lua. A moça sorriu amarelo como se dissesse "estou vendo" e ela foi embora chateada.
Quando chegou em casa, quis provar as roupas novamente. Vestiu-se e se olhou no espelho. Sentiu-se uma menina de 15 anos. Estava bonita, não podia negar. Mas não teria coragem de sair à rua com aquela roupa. Ela não tinha mais 15 anos. Não falava sempre que era lamentável ver "uma trintona querer parecer uma ninfeta"?
Pois é.
Tirou aquela e colocou outra. 
"Merda!"
Envelheceu dez anos com aquela camisa.
Agora era assim. No reflexo da loja ela parecia tão bonita, tão magra, tão alta... mas quando se olhava em seu próprio espelho, era sempre assim. Chegou a conclusão de que os espelhos das lojas devem ser adulterados para que as mulheres se sintam bonitas lá! Como podia engordar tanto no caminho para casa?!
Soluçou.
Às vezes, ela fica tão cansada das coisas, da rotina e das pessoas...
Já tentou de tudo: curso de línguas, aula de dança, igreja, eventos culturais e nada de dar fim a este vazio tão grande e sufocante.
Olhou novamente no espelho, ajeitou a sobrancelha e pulou na cama, com as penas cruzadas. Pegou o livro do Caio que estava lendo e jogou para longe.
Talvez fosse isso. Precisava parar de ler esta gente triste.


"Então, de repente, sem pretender, respirou fundo e pensou que era bom viver. Mesmo que as partidas doessem, e que a cada dia fosse necessário adotar uma nova maneira de agir e de pensar, descobrindo-a inútil no dia seguinte - mesmo assim era bom viver. Não era fácil, nem agradável. Mas ainda assim era bom. Tinha quase certeza."
(Caio Fernando Abreu)

4 comentários:

  1. As vezes. muitas vezes voce fala coisas q são tão minhas q perguntr carece, como nao fui eu q fiz????

    [hj tb estive a ver vitrines e trouxe pra casa algo q no meu espelho odiei]

    ah filhotinha...tinha q puxar a mamys?? rs

    beijo

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  2. Margoh

    A alma da gente se aproxima daquelas que são parecidas com a nossa. :)

    Um beijo carinhoso

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  3. Nat

    Fico feliz!

    Um beijo e um bom domingo de páscoa!

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)