quarta-feira, 14 de março de 2012

Carne, osso e pés

Caminha apressada pela avenida cheia de carros, motoboys e pessoas mal vestidas. 
Os pedreiros, banhados pelo sol do meio dia, abandonam a caixa de cimento para mexer com ela. O fone de ouvido impede de ouvir mais uma destas cantadas baratas - para alguma coisa tinha que servir este amontoado de fio!- ela pensa, sem prestar atenção à música que soa em seus ouvidos.
Imediatamente, como se lesse seus pensamentos, a canção interrompe suas notas. Ela abre a bolsa, remexe nos botões do aparelho celular e descobre que a bateria terminou. Tem que percorrer o trajeto guiada apenas pelo alvoroço dos seus pensamentos.
Uma esquina antes da Faculdade, deixa cair, mas não percebe, uma folha de papel. Um rapaz grita:
- Ei, moça!
Pensando se tratar de mais um abusado, ela nem vira. O jovem insiste:
- Moçaaaaaa, caiu um papel.
Ela se abaixa, envergonhada, segurando a barra do vestido com as mãos, tentando em vão esconder suas partes. Um vento leva a folha para longe antes que ela possa segurá-la. Pestaneja. O moço, do outro lado da rua, se diverte com sua confusão. 
Segundos depois ela desiste, deixando a página ao sabor do ar. O rapaz corre, segura a folha e lhe entrega, sorrindo.
Ela coloca dentro da pasta e esquece de agradecer. Na verdade, não quis demonstrar gratidão. Ele poderia ter pego na primeira vez, não podia?!
Ele provoca:
- De nada...
Ela já está longe.
Adentra os portões da Instituição suando. Calor miserável- pronuncia por entre dentes. Olha no relógio. Ainda é cedo.
Senta embaixo de uma grande árvore, tira um livro da mochila onde se lê em letras de forma: "Então você quer ser um escritor?". Sorri. E mergulha na leitura. Esquece a alta temperatura. Esquece o dia conturbado. Esquece o alvoroço dos jovens nas salas de aula.
Naquele momento é só ela e as palavras.
Passos firmes a tiram do mundo paralelo. É o autor do livro que passa. E ela se dá conta, extasiada, de que escritores também são seres de carne, osso e pés.
Assim como ela.


14 comentários:

  1. Nem sei o que dizer, foi um dos que me prendeu por cinco minutos, inteirinhos!

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  2. Um belo e tumultuado dia, que acaba com a surpresa de ver um ser humano como nós. parabéns!!
    Hoje é o dia nacional da poesia, viva!!!
    Beijokas, sua linda!

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  3. A leitura nos faz esquecer o mundo real e viajar nas nossas fantasias. *-*

    Um beijo querida.

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  4. O texto me fez pensar...
    Quem foi o primeiro no cinema da mocinha deixa as coisas cairem o moço vai e pega para ela e um dialogo começa...

    :)

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  5. Nat

    É a vida real transformada em literatura. :)

    Um beijo

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  6. Sheyla

    Viva a poesia nossa de cada dia.

    Beijos

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  7. Cristiano

    E quem poderá negar que a sedução poderia estar no ar?

    :)

    Um beijo

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  8. Então tu tb és de carne, osso, pés e simpatia?!? Nossaaaa! Achei que tu só existia nos meus sonhos... hehehehe! Bacanérrimo o texto! Bjz, Miche!

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  9. Belo texto Mii :D
    "E ela se dá conta, extasiada, de que escritores também são seres de carne, osso e pés."
    Mas quando estou lendo, perece que os escritores são seres de outros planetas. É ótimo saber que não são :D

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  10. Boa gatada, digo cantada, Fred.

    Beijos

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  11. Seu texto é interessantíssimo, ele prende qualquer bom leitor. Gostei em demasia de sua criação. Parabéns, bjos.

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  12. Djalma

    Lisonjeada com a visita e comentário.
    Obrigado.
    Beijos

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)