domingo, 11 de dezembro de 2011

No ano em que fez greve de amor

Parado nu e com os pelos erriçados pelo frio, olhou fixamente para o espelho trincado do banheiro. Desajeitadamente removeu os últimos vestígios da barba. Uma gota de sangue escorreu perto da boca. Pestanejou:
- Merda de lâmina!
Abriu a torneira e deixou que a água fria lavasse a mancha vermelha.
Ainda sem roupa, caminhou pelo corredor em direção ao quarto. Agarrou o telefone e discou. Do outro lado da linha aquela voz que ele reconheceria a quilômetros de distância:
─ "Delícia acompanhantes", boa noite.
Prendeu a respiração. As pernas amoleceram. Um longo minuto de silêncio seguiu, enquanto o coração perdia o compasso.
─ Alô?! – Ela repetiu, já visivelmente irritada.
Depôs o telefone no gancho.
Ele nunca tinha se deitado com nenhuma mulher sem pagar, mas esta, ele sabia: não estava à venda. - Com tantas outras disponíveis ele fora se apaixonar justo pela atendente da birosca?!-
Lembrou-se da primeira vez que a viu. Tinha ido até a casa com alguns amigos para uma orgia grupal. Seria uma noite de libertinagens. As putas caminhavam pela sala escura com suas saias curtas e suas coxas suculentas à mostra.
Mas havia algo naquela menina de rosto cheio que o atraía. Não conseguiu tirar os olhos dela a noite toda e enquanto os outros caras se afogavam em fluídos e gemidos, ele bebia cervejas baratas encostado ao balcão.
Nunca trocou palavra com a moça, mas depois deste episódio não conseguiu esquecê-la.
Noites e noites iguais àquela se repetem e ele não entende porque cargas d’água ainda não tentou "tragá-la".
Diante destes pensamentos, sente-se patético, mas está perdido por aquela fantasia. Precisa de alguma maneira tocá-la. Imagina-se apalpando-lhe os seios fartos, mordendo-lhe os lábios carnudos e lambendo a silhueta disforme, enquanto ela grita palavras obscenas. 
Faz um esforço sobrenatural para desviar o pensamento daquela criatura, mas já não pode livra-se dela. Está alucinadamente apaixonado, desta paixão que só amores impossíveis podem proporcionar.

6 comentários:

  1. Lara

    Ai, que alegria! :)
    Obrigado

    Beijosssss

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  2. Uma semana bacana pra você também Michele.
    Beijos

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  3. Lasciva paixão
    de amores impossíveis...

    ainda sinto o gosto de sangue
    na boca.

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  4. Por que você faz poema?

    Sim, o corte ainda treme, o coração ainda geme.


    Beijos
    Boa semana

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)