quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Setembro chegou

Levantou cedo. O azul do céu coloria e espelhava sua luz em tudo.  Era, sem dúvida, uma bela manhã.
Desejou, ainda que por um momento, que houvesse nuvens. Achava delicioso descobrir desenhos nelas, deitar-se na grama e fitar a imensidão acima de sua cabeça.
"Viver é bom!"- pensou.
Vestiu-se ao som de Mozart. 
Estava frio e por isso escolheu um sobretudo preto, que não combinava com a beleza matinal, mas que lhe conferia um ar "imponente" e lhe esquentava até as orelhas. 
Tomou, como de costume o seu café, acompanhado com cookies de chocolate. Escovou os dentes, passou um batom claro nos lábios e uma leve camada de máscara nos cílios. Sentiu-se bonita. 
Agarrou o seu livro predileto e partiu. Teria tempo de reler algumas páginas durante o trajeto... Quem sabe hoje não seria a última vez que faria uma leitura enquanto o ônibus corria?! Afinal,  não estava a caminho de realizar um de seus sonhos?! Comentou este pensamento com o irmão, que riu, dizendo que obter a licença para dirigir não faria dela alguém melhor. Ao que ela retrucou, afirmando que a licença lhe proporcionaria a compra e direção de um carro, o que, em linhas gerais, significaria a sua tão sonhada "independência" ( ao menos para locomover-se de um local a outro sem precisar da ajuda de ninguém).
A princípio, estava tranquila. Tinha seguido todo um ritual para que a ansiedade não tomasse conta dela. A música leve, a roupa quente, o chocolate dos cookies,  o livro maravilhoso... Contudo, nada disso impediu que o descompasso do coração e o tremor nas pernas a dominassem. Mais uma vez deixava-se levar por este sentimento negativo que a fazia desacreditar de si mesma! Por que não era capaz de controlar seus atos?! Por que não podia coibir seus impulsos?!
Não sabia...
Subitamente sentiu-se triste e... inferior.
Ao descer do veículo, o vento frio bateu-lhe no rosto e gelou-lhe o nariz. 
Lembrou-se de um  trecho do livro: "Ma salta o risco de giz, non seja como o piru!*". Sorriu tristemente... "Sim! Precisava aprender a saltar o risco, a confiar mais em mim mesma!".
Mas vale... "nenhuma folha cai da árvore antes do tempo", não é assim? Não é o que dizem? Pois então...
E tinha mais... era setembro... As flores já davam os primeiros sorrisos, as rosas surgiam com seu botões. 
Que importava o resto? Que importava o beco, se o que ela via era a linha do horizonte?**
"Deixa estar... porque o que for para ser vigora..." (Maria Gadú)

Foto: Arquivo Pessoal



* Trecho do livro "Um lugar ao sol" de Érico Veríssimo: "La gente risca com giz um circolo in torno do pirú. E o cretino do pirú crede que está prêso. — Guarda... la vita é bela, il mondo te chiama. Salta o risco de giz, no seja come o pirú!"

** Parodiando  Manuel Bandeira: "Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonteO que eu vejo é o beco."

4 comentários:

  1. Achei perfumado esse post! Bom saber que você tem também o perfume da primavera, Pê.

    Bjs, querida. Bom reverteu canto!

    ResponderExcluir
  2. Eraldo

    Saudades de você, seu maroto! :)
    Trouxe presente para mim de la bella tierra? :D

    Bjs

    ResponderExcluir
  3. Maela

    Me too. Adoro as cores, o ar, o perfume! :)

    ResponderExcluir


"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)