domingo, 13 de março de 2011

Golpe se sorte


Fora sempre sozinho. Mas sabe-se Deus porque, hoje, a sensação de abandono ficara ainda mais evidente, sufocante e desesperadora.
Deitado no sofá, após um dia desgastante, com o nó da gravata desfeita, a camisa entreaberta no peito, as mãos soltas e impotentes e o olhor fixo no teto, ele pensava no que tinha feito da vida até ali.
Já não era mais tão jovem a ponto de fazer planos e há muito havia perdido a capacidade de sonhar.
Tinha filhos, mas não esposa.
Mulheres possuíra muitas. Loiras, morenas, negras, ruivas... Nenhuma escapara de seu poder de sedução.
E no entanto, ali estava agora: sem nem ao menos um rabo de saia para fazer-lhe compania.
Aliás, naquele instante, precisaria muito mais do que a simples presença de uma mulher qualquer. Estava cansado de aventuras e casos ao acaso.
Chegou inclusive, num acesso de devaneio profundo, a desejar uma alma feminina que fosse como a de sua mãe,sempre carinhosa, sempre solícita, sempre submissa, sempre esposa. Mas estes pensamentos duraram segundos, pois foram forçadamente suspensos tão logo trouxeram a imagem gorda e flácida da figura materna.
Não! Não chegara ainda a tanta desesperação...
Tomou sofregamente mais um gole da bebida que estava no copo, cujas mãos abandonadas seguravam.
Levantou-se cambaleando e tontamente foi até a janela. Olhou para o céu. A lua, toda imponente, retribuiu a mirada e de lambuja, sorriu-lhe como cúmplice.
Ele não se conteve. Entre soluços e lágrimas desesperadas, lembrou-se de um trecho de um poema de Drummond que lera uma vez num livro que nem sabia mais qual era. Repetiu a frase como a se justificar para si mesmo: "...essa lua, esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo!".
Nisso, ouviu alguns passos na calçada. Eram de mulher, de salto de mulher.
Voltou-se na direção de onde vinham e quase caiu de costas.
Dentro de um vestido provocantemente vermelho, uma criatura vinda sabe Deus de onde (e podia ser do inferno que ele não se importaria), sorriu-lhe sedutoramente e piscou-lhe os olhos.
Qualquer outro código comunicativo seria dispensável naquele momento.
Agarrou a mulher, puxou-lhe para dentro da casa e enquanto beijava-lhe e arrancava a roupa vorazmente, pensou consigo mesmo o quão bom fora não ter se casado...

(Reedição)

Para ler a continuação da crônica, clique aqui: http://profmieseusdesvaneios.blogspot.com/2010/04/golpe-de-sorte-parte-ii.html

4 comentários:

  1. Conto caprichado, já facetuitei pro pessoal.

    Bjos!

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  2. Vc é boa de crônicas amiga, gostei muito.
    Beijos. Boa semana.

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  3. Rodrigo

    Obrigado. Fiquei feliz com o elogio e com a divulgação.

    Um abraço

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  4. Miss

    Treinando... talvez um dia escreva um livro.

    Beijos!

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)