segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Entre a vida e a morte

Parado em frente aquela urna fúnebre, Maurício olhava fixamente para a face do morto. 
Sobre o caixão, atraídos pelas flores, milhares de insetos sobrevoavam a cara pálida do defunto e um  cheiro  azedo impregnava o ambiente. Maurício sentiu náuseas. Sufocado com a cena, desviou o olhar. Começou a observar as outras pessoas que estavam na sala.
Muitas senhoras afetadas, algumas jovens que deviam ser as netas do falecido, alguns homens gordos, com suas caras redondas e vermelhas e umas poucas crianças. Com exceção destas últimas, todos os demais estavam em trajes  negros. 
O contraste entre os infantes e os mais velhos, fez com que ele sorrisse.  Como lhe apetecia o ar alegre e despreocupado daqueles pequenos!  Definitivamente ele preferia a vida à morte e, aquelas crianças eram as representantes de toda a boa energia que era viver.
Concentrado nestas análises, deu-se conta de outro fato: não havia um  corpo ali, ou melhor, um par de olhos, que não estivesse coberto por óculos escuros. Parecia-lhe uma aberração. Lembrou-se do filme "Homens de preto" e não pode conter uma gargalhada. Algumas cabeças viraram e muitos a balançaram em sinal de reprovação.
Decidiu sair.
Lá fora, sentando em um velho banco de madeira, continuou a pensar nos malditos óculos. Veio-lhe em mente que as pessoas os usam para esconder vestígios das lágrimas. "Mas, caramba! Por que diabos é preciso ocultar os olhos vermelhos?! Será que não se pode mais ter liberdade para chorar a morte de um ente querido?!".
Foi aí que ele teve um estalo! "Claro! Por que não havia pensado nisso? Na verdade, estes hipócritas estão disfarçando o sentimento que não existe. Querem mostrar aos demais o seu pesar, quando na realidade ele não passa de fingimento. Não há olhos vermelhos e nem lágrimas. O que existe é um velar traiçoeiro e fingido."
Sentiu nojo da raça humana.
A partir daquele dia passou a evitar velórios e enterros. Não estava preparado para o último capítulo da vida, mas sobretudo para encarar a falta de escrúpulos dos vivos.


3 comentários:

  1. Certa vez pensei escrever um poema sobre isso, mas acabei abandonando o projeto por muitas outras questões. Não quero retomá-lo, afinal você já disse o que eu queria ter dito. E agradeço por isso. Beijão!

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  2. fingir sentimentos é uma premissa do ser humano.

    beijo!

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  3. Michele....

    "Deus deu aos pássaros
    o dom de voar,
    e concedeu aos poetas
    o direito de sonhar."

    © Valter Montani

    Eu sonho com um mundo melhor, mais humano com justiça e respeito entre os homens. O que é preciso para isso? cada um fazer a sua parte, procurarei fazer a minha. Feliz 2011!

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)