domingo, 14 de novembro de 2010

Pensamento dominical

Fui criada de acordo com princípios bíblicos e protestantes, em uma família tradicional- no sentido literal da palavra. 
Desde muito cedo foi me ensinado que neste mundão de Deus, haveria sempre o duelo entre o "certo" e o "errado", o "bem" e o "mal", o "bom" e o "malvado". 
Durante minha infância e adolescência, recebi muitos "nãos" e fui proibida de realizar muitas das coisas que meus amigos praticavam. 
Ir à festinhas, churrascos, cinema, cortar os cabelos ou vestir calças compridas estavam entre as restrições.
Aos sábados à noite e aos domingos pela manhã, eu tinha um programa garantido e intransferível: assistir aos cultos na Igreja. Mas este fato, era o que menos me incomodava. Eu me sentia bem ouvindo palavras de paz, de amor e de união. Elas caiam perfeitamente em minha utopia de mundo perfeito, iluminado e bom.
O que me deixava magoada e frustrada, era perceber que as pessoas me olhavam de maneira estranha. Com o tempo, conforme eu ia crescendo "em sabedoria e entendimento", notei que estes olhares eram de reprovação. Não contentes em criticar-me com os olhos, muitos passaram a despejar-me palavras... Não simples palavras, mas vocábulos que iam em desencontro com aquilo que eu havia aprendido no seio de minha família. 
Cresci em meio a inúmeros conflitos interiores, de acordo com a dualidade que me fora apresentada, com a luta entre o que meus pais me ensinaram e o que o mundo/as pessoas me mostravam.
Apesar disso, não me tornei uma adolescente rebelde. Pelo contrário, fui uma jovem pacata, dedicada aos livros e a minha fé. Com algum esforço, consegui uma cadeira nos bancos acadêmicos. 
Foi neste momento que novas visões e percepções foram surgindo diante de mim. Mestres ateus e incrédulos- perdoem o pleonasmo- me foram apresentados, com suas palavras que agridem. Sobrevivi a eles. Consegui concluir uma especialização. Sentei-me junto aos doutores como mestre em formação.
Hoje, não freqüento a Igreja. Não por tudo o que me foi dito, nem pelo que tentaram me colocar na cabeça, mas por convicções próprias. Deixei de seguir alguns preceitos, porém não perdi a minha confiança em Deus.
Creio que mais importante do que fazer parte deste ou daquele grupo religioso, é manter-se como uma pessoa íntegra, com princípios de paz, fazendo o "bem sem olhar a quem".
Ainda não sei como educarei meus filhos, se um dia os tiver. Sei apenas que agradeço a meus pais pela pessoa que sou hoje, pois, por maior que tenha sido a minha dificuldade em entender a complexidade que é a relação entre Homem e Deus e por todos os conflitos que passei, hoje posso dizer que sou uma pessoa de bem.
Não mais alienada ou excluída do mundo, nem tampouco mergulhada em crenças que sufocam.
Estou no meio. E se o centro é o equilíbrio, então assim vocês me têm.
(Por  Michele Pupo)


Deixo aqui um poema escrito por meu irmão e que retrata um pouco do que penso:



Repugnância (18/06/2010)

Compreensões do mundo me cercam,
Idéias que não me entram na cabeça
E na calçada, na rua dejetam
Suas leis e seus credos com violência.

Sufocam-me, me agridem, desnorteiam-me;
Espinhos, mordaças, pinças eles são;
Co’a mesma fé que pregam chantageiam-me,
Mão que rouba o pobre e lhes dá a benção.

Argúem, gritam, choram, mas só mentem
E seus seguidores, múmias apáticas,
Também gritam, choram, mas não entendem

Enquanto eles, inquestionavelmente,
Quedam-se cegos, a Razão, enfática,
Dita-me as linhas da visão prudente.

10 comentários:

  1. Gostei muito deste texto. Menina Michele, o mais importante é a fé que tens em si. Um final de domingo bacana e uma segunda de feriado de descanso... um beijo.

    ResponderExcluir
  2. Abraços indiretos ao Fábio pelo ótimo poema. E quanto a você, Michele. Seu Pensamento Dominical cairia como uma boa coluna para os seus devaneios. Bom final de domingo.

    ResponderExcluir
  3. Oláá!! Obrigada por ter indicado este blog, já estou seguindo também!
    Adorei o seu texto!!
    Eu comecei a sair da igreja seguindo esta linha de pensamento de não ter religião. O que importa mais para o mundo? Religião ou gente de bom caráter?
    Hoje sou agnóstica, uma pessoa de dúvidas.. mas acredito totalmente no respeito!

    Deixo aqui uma frase que uma grande amiga me deixou a uns anos atrás:
    "A verdade é um espelho que caiu das mãos de Deus e se quebrou, cada pessoa pega um pedaço e acha que a verdade está totalmente naquele cacto."

    Beijo!!

    ResponderExcluir
  4. Encontrarmo-nos em toda a nossa plenitude, redescobrindo a nossa verdadeira essência, é das melhores formas de vivermos a nossa espiritualidade.

    Tudo de bom,

    Samuel Pimenta.

    ResponderExcluir
  5. Michele P.!!!
    Você sempre surpreende-me com seus devaneios!
    Lindo teu depoimento...diria eu, de fé! Nada mais nobre em ser humano é, senão, a fé Naquele que nos deu Seu sopro divino...
    Tenho pra mim que o Alicerce que nossa familia nos oferece...é único e tão importante, para que hoje, tenhamos escolhas....e do que é feito a vida, senão, de escolhas?? Escolhestes o Bem....e o Bem é de Deus! Oxalá seja tua fé e teu Bem Interior!!
    Afinal..o Caminho nem é tão importante....e sim, para onde ele nos leva!!

    Adoro te ler!
    Beijo carinhoso!!

    ResponderExcluir
  6. Se eu disser o quanto eu gosto de você,
    o quanto você é importante para mim,
    eu diria que sem você na minha vida,
    eu não teria uma história para narrar,
    Prefiro agradecer-lhe,
    pela sua lealdade, pela sua companhia
    e pelo seu carinho...
    Obrigado por você existir na minha vida!

    bjs ♥

    ResponderExcluir
  7. Aproveitando o embalo, deixo um texto direto do meu caderno de notas de um autor que desconheço:

    "Não havia um manual das igrejas naqueles dias dos apostolos, mas havia a direção do espírito, a criatividade da igreja, o amor fraternal, o amor pelos não-cristãos e um incansável dinamismo que produzia frutos para a glória de Deus. Jesus não mendou que elaborassem maçudos tratados religiosos, nem que se aprofundassem na filosofia nem que participaçem de movimentos e ritos místicos, mas que fossem testemunhas, falando do visto e ouvido, contando as transformções operadas pelo Salvador na vida das pessoas"

    ResponderExcluir
  8. Também fui criado num lar extremamente religioso. Pensei, na época, que acreditava mesmo em tudo aquilo. Hoje, percebo que religião e qualquer fé religiosa são inúteis. O que vale, antes e acima de tudo, é o respeito. Ele é o único que transcende credos e povos.
    Respeitar é o primeiro passo para amar.

    Boa divagação dominical.

    Bjo

    ResponderExcluir
  9. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  10. Eu acho que você já sabe mais ou menos o que penso sobre crença, mas quanto ao que diz, é meio por aí. Infelizmente, a maioria das grandes religiões e crenças tendem a se fechar tanto pras possibilidades que acabam se fechando pra inteligência.

    Belo post. Bjs!

    ResponderExcluir


"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)