segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Um amor para recordar

Sentado naquele velho banco de praça, Victor contempla com nostalgia a  cotidiana paisagem. 
De um lado do parque, dois velhos jogando dominó contrastam com a figura alegre de algumas crianças que correm atrás de uma pipa colorida. 
Um sorveteiro passa empurrando seu carrinho, enquanto assobia uma música qualquer. Victor não sabe dizer qual é, mas sabe que é triste. 
 Este cenário lhe é familiar. Os velhos. As crianças. O sorveteiro... O mesmo sorveteiro de sempre, com sua música triste.
Mel costumava dizer que este homem devia conter dentro de si todo o desgosto do mundo, tal era o som  sombrio de sua cantiga. 
Victor achava graça desta hipérbole. 
Mas hoje, esta lembrança não o faz rir.
- Ah, Mel! - Suspira. 
E ao pronunciar este nome, a dor toma conta de sua alma.
Um casal de namorados cruza a alameda de mãos enlaçadas. Eles sorriem. 
Victor os acompanha com o olhar até que eles desaparecem no final do bosque.
 Lembra-se de seu primeiro encontro com Mel. 
Sorri também. 
Foi em uma colônia de férias. A vizinhança estava toda lá. Ele ainda era um cachorrão forte, recém saído da faculdade. Mel encantou-se com seu  porte altivo e  pelo roliço. Ele apaixonou-se pela faceirice e o rebolado peculiar de Mel.
Casaram no verão seguinte. Victor estava todo pomposo com uma gravata vermelha. Na verdade, toda  aquela altivez encobria a sensibilidade de que era dono. Teve medo que ela não viesse. 
Ela veio. Os filhos também  vieram alguns anos mais tarde.
Tiveram algumas brigas. Como aquela em que Mel o encontrou sondando a vizinha banhar-se. Ficou tiririca! Ele teve que dormir fora da casinha durante uma semana...
Era um cão malandro.
Mas isso foi há muito tempo...
Sentado no velho banco, revivendo todos estes momentos, Victor sorri.
Fecha os olhos cansados para o derradeiro sono... e parte com a certeza de que foi feliz. 


Colônia de férias Cani-cães

O dia em que Mel o pegou em flagrante
Todo pomposo em seu casamento

Júnior, o fruto do amor de Victor e Mel


No final restam só lembranças. 

9 comentários:

  1. A paisagem tá muito legal! Gostei do final...

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  2. Tá valendo
    também me surpreendi no final!

    Bjs de cachorro!

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  3. Que narrativa interessante, uma descrição fantástica do cenário, do contexto.
    Gostei, como os animais parecem humanos.
    E os adoro, quanto mais conheço os homens.

    Beijos.

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  4. Adorei a descrição, as sensações apresentaram-se tão vivas a mim, como se as recordações também fossem minhas. Interessantíssimo. beijos.

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  5. Adorei a descrição, as sensações apresentaram-se tão vivas a mim, como se as recordações também fossem minhas. Interessantíssimo. beijoss.

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  6. Muito fofo teu blog flor...

    Abraço com carinho..

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  7. Fiquei até com vontade de ouvir "Vida de Cachorro" com os Mutantes.

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  8. Vida de cão passa tão rápido...
    mas eles tem tanta sorte...
    Não precisam meditar sobre o amor
    para se sentirem realizados:
    Simplesmentes amam.

    Adorei Michele
    =}

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  9. Cara amiga Michele P.:
    Cara, isso é uma viagem!!! Sensacional!
    É real esta história?

    Me amarrei nela, como me amarro em ti!!
    Por acaso n queres participar do meu humilde blog, como autora dele tbem???
    Tu me fascinas!!!

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)