domingo, 15 de agosto de 2010

A menina, a mulher e a boneca

Quem reparasse com mais atenção naquela menina encolhida a um canto da sala logo perceberia  a angústia que lhe roía a alma. Com os olhinhos castanhos, grandes e assustados, buscava  em vão pelo apoio de alguém, por uma mão amiga. 
Mas nenhuma pessoa ali parecia se preocupar com ela. Aliás, ela tinha a sensação de que nunca ninguém havia se importado.
A música, a sala, aqueles saltos que circulavam de um lado para outro, o tilintar dos taças de vinho, tudo fazia parte de um mundo alheio ao seu. 
Mas, havia algo que  mostrava-se adequado aos seus sentimentos. Era o nome que lhe fora dado ao nascer: Mariana era mesmo um mar de amargura.
A mãe, diziam, morrera no parto. Sobre o pai,  nunca ninguém se atreveu a  contar nada. 
Crescera de casa em casa, morando um pouco aqui, um pouco ali, sem ter um cantinho para chamar de seu e uma amiga para chamar de sua.
E agora, depois de tanto sofrimento passado, estava ali naquele lugar imundo. E não pensem vocês que esta imundície se  refere a falta de limpeza ou higiene. Nada disso. A sujeira que pairava naquela sala era de ordem moral. Ou melhor, imoral. 
Os gemidos, suspiros e palavras obscenas que saiam dos quartos espalhavam-se pela casa. E a menina tremia cada vez que isso acontecia. 
No entanto, naquele dia, o medo e a aflição eram maiores. Sentada naquele canto, Mariana sabia que aquela tinta de um vermelho vivo que escorria por entre suas coxas era o sinal de que logo ela estaria protagonizando as cenas que ouvia...
E ao pensar nisso, um soluço cortou o ar ao mesmo tempo em que lágrimas romperam aos borbulhões. 
Desesperada, ela só teve uma reação. 
Juntou a boneca que estava ao seu lado no chão e saiu correndo pela rua, numa tentativa aflita de 
garantir sua integridade moral e sua inocência, embora só muitos anos depois tenha compreendido isso.

Fonte da imagem: http://i.olhares.com/data/big/179/1798739.jpg

4 comentários:

  1. E pensar que isso realmente acontece, me deixa de coração apertado!

    beijo moça!

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  2. Cenas do cotidiano tão reaL/
    Triste..sim.....Triste.

    Oi Mi....Mi Maior!!

    Como vai minha linda menina?
    Com ou sem boneca??

    bjs amada.
    Estou deixando aqueLe abraço......

    bjsssssssssssssssssssssssss!!

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  3. E vc est devendo uma visita
    no Meu BLOG!!!!

    iuuuuuuuuu
    iuuuuuuuuuuuuuuuu!!!

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  4. Gostei. Mas, para além da mensagem, ainda bem que nos brindou com um final temperado de esperança e dignidade.

    Beijo :)

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)