terça-feira, 27 de julho de 2010

Maria


Não suportando mais a si mesma e a dor que afligia-lhe a alma, apoiou-se no parapeito da janela e olhou, primeiro para o chão áspero e para as pessoas que passavam na calçada. Em seguida dirigiu os olhos tristes para o céu púmbleo, onde nuvens negras agrupavam-se formando desenhos macabros.
Estava abafado. Sentia-se sufocada.
O choro a apertar-lhe a garganta em um nó desesperador.
Há muitos dias esta sensação a acompanhava e ela não sabia ao certo o motivo.
Era sozinha, apesar de jovem. Era triste também.
E estes sentimentos misturados com o mormaço do dia, faziam ampliar-lhe o sofrimento.
Pensou em acabar com tudo naquele momento. Olhou novamente pela janela.
Pessoas alheias ao que se passava no quinto andar daquele prédio, continuavam seu trajeto de formigas apressadas, tentando fugir dos grossos pingos de chuva que aos poucos iam se multiplicando.
Maria ficou algum tempo observando aquele búrburio rotineiro, até que seus olhos ardentes e turvos pelas lágrimas, viram apenas pequenas manchas movimentando-se.
Suspirou profundamente. Abriu a porta do apartamento e desceu correndo as escadas do prédio. Passou voando pelo porteiro, que a fitou perplexo. Já estava quase na calçada e ainda teve tempo de ouvir do homem algumas palavras soltas:
"- Maluca... agora isso..."
Não pode deixar de soltar um riso nervoso.
Atravessou a rua em meio aos carros, provocando uma instantânea confusão.Alguns motoristas colocavam o rosto para fora das janelas dos veículos ao mesmo tempo em que berravam propostas indecentes. Outros buzinavam histéricamente, ao passo que as mulheres comentavam horrorizadas:
"- Mas que pouca vergonha!"
Maria, ignorando o tumulto, atravessou correndo uma praça e passou por um grupo de jovens, que debaixo de seus guarda-chuvas coloridos gargalhavam e gracejavam felizes. Nem deram por ela.
Sentiu inveja deles, mas não parou.
Só descansou muito tempo depois, quando deu-se conta de que estava em uma rua sem saída.
Sentou-se na grama em frente do velho casarão que ali havia, abraçou os joelhos e chorou. Um choro compulsivo e desesperado.
Ficou ali durante muito tempo.
Adormeceu.
No outro dia, ao sair para o trabalho, o dono da antiga casa deparou-se com uma imagem inusitada: uma jovem, de aparentemente 20 anos, nua, jazia esticada no gramado.
Ninguém jamais soube explicar o motivo da morte. Dizem apenas que a encontraram sorrindo...

6 comentários:

  1. O problema da solidão, apesar de vivermos no meio de milhares de pessoas...
    Tocante!

    Beijo

    ResponderExcluir
  2. Talvez há ai um bom jeito de desencarnar. x)

    ResponderExcluir
  3. AC

    Algumas pessoas encontram em si mesmas companhia para a solidão. Não é lindo? ;-)

    Obrigado pela visita!

    Marco
    Não seja insensível, menino! rs

    ResponderExcluir
  4. Tb gosto de pessoas assim como vc... que texto hein!
    Olha sei que não é pra debater, pq como vc mesmo tá dizendo aí no comentário hehe. Mas pareceu-me que Maria chegou a um ponto estremo de histeria, chegou até a confundir sua tristeza mostrando alegria....sem debates enfim!

    Vaeu a visita, volte sempre!
    Voltarei... bjus

    ResponderExcluir
  5. Olá Michele

    Eu sei, eu sei que a vida "faz isto" ás pessoas...

    Quantas Marias não há por aí?

    Gostei muito do seu texto.

    Obrigada pela sua visita ao meu cantinho e pelas suas palavras.

    Desejo que tenha um lindo dia.

    Beijos

    viviana

    ResponderExcluir
  6. Athila,

    Vc veio! Obrigado! Esta não é uma página de debates, mas aceito opiniões. ;-)


    Viviana

    Deve haver muitas Marias por aí mesmo...
    Quem não se sente assim, vez ou outra?
    O perigo é o desajuste constante.
    Obrigada pela visita! Bjs

    ResponderExcluir


"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)