sábado, 1 de maio de 2010

Histórias da vida moderna

Namoravam há um ano e meio e o enlace não era o que se podia chamar de um caso de amor.
Viam-se quando dava, embora conversassem todos os dias pelo celular.
Separando-os, havia uma longa ponte.
Ele era loiro, ela gostava de morenos.
Ele era simples, ela gostava de luxo.
Ele estudara pouco, ela era uma intelectual.
Ele era acomodado, ela adorava mudanças.
Ele contentava-se com pouco, ela queria sempe mais.
Ele era magro, ela preferia homens fortes.
Ele a amava, ela não tinha tanta certeza disso...
As diferenças eram tão aparentes que aos outros parecia impossível que o romance fosse perdurar.
Em um dia qualquer, ela conheceu um moreno, de vida intelectual intensa, ousado, desafiante, forte... e apaixonou-se.
Não levou muito tempo para terminar o antigo namoro.
Sentia-se completa com o novo parceiro.
Fizeram planos.
Programaram viagens.
Riram juntos.
Passaram noites acordados, trocando palavras apaixonadas.
Ela nem lembrava-se do outro.
Mas ele, o outro, não a esquecera. Tanto é que não comia, não saía e não queria ver mais ninguém. Estava doente de amor.
Muitos meses se passaram. Um dia, o moreno não ligou. Também não enviou nenhum torpedo pelo celular, email ou qualquer outro tipo de mensagem.
Ela preocupou-se.
O tempo, que não perdoa ninguém, foi passando e com ele a esperança da jovem. O seu pretendente havia desaparecido da mesma forma como surgira.
Ela passou dias relendo as antigas mensagens recebidas pelo msn e as tantas promessas de um futuro feliz...
Mas como não era dada a sofrimentos como esses, em uma noite de fúria deletou todo e qualquer vestígio do que fora o caso.
E ao excluí-los, deixou que se esvaísse a figura do indivíduo e a alegria que sentira ao lado dele.
Os dias tornaram-se cinzas e ela foi ficando cada vez mais triste, apagada.
O antigo namorado, como que adivinhando a situação, voltou a ligar.
No início, ela recusava as chamadas.
No entanto, em uma noite fria e solitária, decidiu atendê-lo.
- Oi... - Balbuciou melancolicamente
- Olá! - respondeu o pobre rapaz.
- ...
- ...
- Por que ainda está me ligando?- perguntou ela, certa de que ele diria que ainda a amava, que sentira sua falta, que queria reatar o namoro.
- Sabe Marina, sempre tive certeza de amá-la. Sofri muito quando deixou-me. Chorei, deixei de comer, abandonei minha vida social...
- Também te amo. - disse ela cortando a fala do moço.
- Ainda não terminei...
- Eu te amo Flávio...precisei passar este tempo longe de voc...
- Marina...
- ...para decobrir isso, eu também quero voltar e...
- Marina...
- quero casar com você, passar o resto da minha vida ao seu lad...
- Marinaaaaaa!!!!!!!!!!
- ?- assustada com o tom de voz, ela calou-se.
- Durante longos 18 meses dediquei meu tempo, meu amor e minha paciência à você. Hoje eu só liguei para dizer: NÃO PRECISO MAIS DE VOCÊ!
- Mas...
- Ah, e eu sei onde está o "seu" amor...
Sem tempo para que ela respondesse, o vingado Flávio colocou o telefone no gancho, escarrapachou-se no sofá, ligou a TV para assistir tranquilamente ao lado do novo namorado moreno, o seu Flamengão subir para a 1a divisão.

Um comentário:

  1. A vingança sempre é plena, quando dada pelas mãos sagradas do acaso, penso eu.

    Bjs!

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)