quinta-feira, 15 de abril de 2010

Palavras de um futuro bom



Naquele dia, acordara com um pensamento fixo. Há muito tempo esta idéia lhe atormentava a cabeça, mas naquela manhã, quando abriu os olhos, sentiu que precisava acabar de vez com as suas incertezas.
Por diversas ocasiões passara em frente a velha casa de madeira,com suas paredes descascadas da tinta já envelhecida e com suas enormes janelas, sempre fechadas.
Não que tivesse medo, mas a voz de repreensão de sua mãe retumbava em sua cabeça de maneira repetitiva e irritante.
No entanto, naquele dia, sabia que isso não iria acontecer.
Envolta nestes pensamentos, só percebeu que já havia passado um quarto de hora quando o grande relógio ecoou na parede. Ficou por um momento embriagada pelo som que tomou conta do ambiente... Tom...tom...tom...Oito batidas! Precisava levantar-se!
Pulou da cama, apressadamente. Agarrou uma toalha de banho e correu para o chuveiro. Enquanto a água fria escorria pelo seu corpo, deixou que toda a ansiedade e temor escoassem com ela pelo ralo... Sentia-se tranqüila. Sabia que nada a faria mudar de idéia. Estava decidida a não retornar sem uma resposta.
Fechou o chuveiro, secou-se. Apesar do calor sufocante que fazia, optou por um vestido preto. Não queria chamar atenção com uma roupa muito exagerada.
Respirou fundo, mirou-se no espelho e saiu.
Já na rua, percebeu que tinha feito uma péssima escolha. O vestido, de um tecido asfixiante, colava-se ao seu corpo e a fazia suar em bicas! Apesar disso, continuou caminhando.
Estava na esquina e começou a avistar a casa. Foi andando devagar, como se estivesse prestes a desistir. Não! Ela não podia! Passara a noite planejando tudo! Tinha que entrar!
Parou em frente ao portão gasto pelo tempo e empurrou lentamente, fazendo-o ranger. Este barulho, fez com que estremecesse por dentro. Sentiu um arrepio percorrer o seu corpo e a sua alma.
Neste momento, escutou uma voz rouca de mulher. Era a dona da estranha habitação.
A mulher devia ter uns 70 anos ou mais. Trajava uma saia vermelha como aquelas das ciganas e um xale preto sobre os ombros. Parecia sombria e mal humorada.
Já arrependida de sua ousadia, abriu com receio um sorriso e cumprimentou a velha.
A mulher, como se já soubesse o que a levara até lá, pediu que entrasse. Sentou-se timidamente na cadeira que esta apontou e ficou analisando a triste sala. Os móveis eram escuros como a dona e, a janela fechada, impedindo a iluminação, deixava o ambiente ainda mais desesperador.
Sem rodeios, a velha aproximou-se com um maço de cartas de um baralho amarelado. Pediu que ela, calmamente, fechasse os olhos e se fixasse no pedido. Obediente, pôs-se a mentalizar a idéia que há tanto tempo lhe incomodava.
Minutos depois, abriu os olhos. A mulher, prontamente embaralhou as cartas e soltou-as na mesa. Oito de paus. Ás de espadas. Sete de Ouros. Sete de copas.
E com aquela voz rouca, medonha, disparou:
- As cartas mostram suas futuras realizações. Se você estiver empenhada em algo, será bem-sucedida. Surgirá em sua vida alguém que poderá ajudá-la. Você se afastará de alguém inconveniente que talvez venha a morrer. Você brevemente receberá boas notícias.
Depois de pronunciar estas palavras, juntou as cartas e enfiou-as em uma gaveta onde se misturavam papéis, velas, incensos e todo tipo de feitiçaria.
Ela, sem saber o que fazer, levantou-se indignada e saiu correndo da casa. Na garganta, o choro entalado.
Que futuro tão pobremente delineado e exemplificado! Ora, que diabos! Porque imaginou que uma velha daquelas seria capaz de traçar o desenho do seu destino?! Claro que fora loucura! Perder noites de sono, torturar-se dias a fio, para isso?! E o medo, a ansiedade, a insegurança e suas incertezas?
Que infantil fora!
E sem saber por que, tirou os chinelos e correu em direção à sua casa. Ao chegar, agarrou algumas cartelas de medicamentos, encheu um copo de água e foi engolindo uma a uma as cápsulas coloridas. Estava cansada. Para ela, aquilo fora o fim. Tantas expectativas, tantos sonhos, tantos projetos. Para quê?
No dia seguinte, o vizinho encontrou-a estirada na sala. Já não era possível sentir os batimentos daquele coração tão comumente descompassado...
Finalmente ela havia se livrado de alguém que a torturou a vida toda, finalmente havia atingido a felicidade! A realização dos seus sonhos mais ocultos!
Matara o seu EU maligno. Matara o seu pior inimigo.
Mas infelizmente não teve tempo de agradecer à Cartomante.

2 comentários:

  1. Adoro contos sobre a cartomancia, são sempre grande fontes de diversão! Sua personagem é um caso complicado hein guria... Achei que ela fosse ficar feliz com as previsões! Aliás, é nisso que o teu conto se diferencia, pois, nos contos de cartomante sempre as revelações são macabras! Parabéns, escreves tri-bem!

    Um abraço!

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  2. Oi Léo!
    Adorei recebê-lo aqui.
    Agradeço pelos elogios não merecidos e convido-o a voltar sempre para tomar um coca e "papear" comigo. ;-)

    Beijos!

    PS: Já passei lá no seu espaço e nem consegui comentar... Garoto! Vc devia estar publicando livros!

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)