sexta-feira, 23 de abril de 2010

Golpe de sorte?



Fora sempre sozinho. Mas sabe-se Deus porque, hoje, a sensação de abandono ficara ainda mais evidente, sufocante e desesperadora.
Deitado no sofá, após um dia desgastante, com o nó da gravata desfeita, a camisa entreaberta no peito, as mãos soltas e impotentes e o olhor fixo no teto, ele pensava no que tinha feito da vida até ali.
Já não era mais tão jovem a ponto de fazer planos e há muito havia perdido a capacidade de sonhar.
Não tivera filhos,nem esposa.
Mulheres possuíra muitas. Loiras, morenas, negras, ruivas... Nenhuma escapara de seu poder de sedução.
E no entanto, ali estava agora: sem nem ao menos um rabo de saia para fazer-lhe compania.
Aliás, naquele instante, precisaria muito mais do que a simples presença de uma mulher qualquer. Estava cansado de aventuras e casos ao acaso.
Chegou inclusive, num acesso de devaneio profundo, a desejar uma alma feminina que fosse como a de sua mãe,sempre carinhosa, sempre solícita, sempre submissa, sempre esposa. Mas estes pensamentos duraram segundos, pois foram forçadamente suspensos tão logo trouxeram a imagem gorda e flácida da figura materna.
Não! Não chegara ainda a tanta desesperação...
Tomou sofregamente mais um gole da bebida que estava no copo, cujas mãos abandonadas seguravam.
Levantou-se cambaleando e tontamente foi até a janela. Olhou para o céu. A lua, toda imponente, retribuiu a mirada e de lambuja, sorriu-lhe como cúmplice.
Ele não se conteve. Entre soluços e lágrimas desesperadas, lembrou-se de um trecho de um poema de Drummond que lera uma vez num livro que nem sabia mais qual era.
Repetiu a frase como a se justificar para si mesmo: "...essa lua, esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo!".
Nisso, ouviu alguns passos na calçada. Eram de mulher, de salto de mulher.
Voltou-se na direção de onde vinham e quase caiu de costas.
Dentro de um vestido provocantemente vermelho, uma criatura vinda sabe Deus de onde (e podia ser do inferno que ele não se importaria), sorriu-lhe sedutoramente e piscou-lhe os olhos.
Qualquer outro código comunicativo seria dispensável naquele momento.
Agarrou a mulher, puxou-lhe para dentro da casa e enquanto beijava-lhe e arrancava a roupa vorazmente, pensou consigo mesmo o quão bom fora não ter se casado...

5 comentários:

  1. Aaah, como homens me irritam! heheheeh

    É bem assim, amiga!

    Adorei!

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  2. 2,irritantes msm,mas enfim,acho q nesse mundo se precisa dos dois lados,senão não haveria graça...Golpe de sorte,hum,é sorte msm ter mulher caindo do céu.xD
    Interessante,+ pensando,queria essa sorte por aki,quando tivesse triste caisse um homem perfeito do céu.nossa,q viagem,desculpa pelos pensamentos loucos moça.Gostei do texto.=)
    mpça uma boa semana até mais.^^bjs

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  3. Se eu houvesse escrito isso, seria análise auto-biográfica, mas como foi você, só posso dizer que adorei o texto...

    Não sei se é porque me identifico com personagem - troquemos o conhaque por smirnoff ice e dá no mesmo - se é por que passo pela fase de solidão compulsiva ou se é pelo fato de, apesar do enorme vazio em não haver me casado, tem horas que dou graças pelo fato de não tê-lo feito...

    Infelizmente, pra mim, mulheres não me caem do céu assim...rs

    Beijocas

    ps: fica me rogando praga, né?
    Vai ter troco!

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  4. Rô e Ananda:
    Os homens não valem nada mesmo! rs Mas esperem só para ver o que farei com este que é meu por direito (sou criadora e faço de meus personagens marionetes que manipulo da forma como bem entender! rsrs).

    Celso:
    Acho que mulher nenhuma cai do céu... rs
    Aguarde a segunda parte da história.

    Beijocas minha gente bonita!

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  5. Nuossa! Se eu não fosse feminista como sou... rsrsr

    Muito bom!

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"Se você me lê será por conta própria e autorrisco." (Clarice Lispector)