sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

18 meses

Logo que lhe fui apresentada, ouvi do pediatra:
 "- Que personalidade marcante terá esta mocinha!".
Desejei naquele momento, ter nascido um pouco mais eloquente, para conseguir me defender de tamanho desaforo. Infelizmente, naquela época, o ápice da minha argumentação era um choro estridente e alguns balbucios. Tratei de aprimorar o vocabulário para pegá-lo desprevenido. Na sétima consulta, encarei-o inquisitivamente e soltei:
 - Baba, aga, nana, gaga!!!!
 O resultado não foi o 
esperado. Gargalhada geral. Decepcionada, comecei a prestar mais atenção no que dizia minha avó e a repetir sistematicamente algumas sílabas, até que um dia percebi que já tinha domínio sobre elas. Qual foi o desapontamento de mamãe, quando, ao invés de pronunciar o seu tão esperado e doce tratamento, eu a chamei de "bobó" (vovó, para os íntimos). Dali para frente foi ladeira abaixo. As palavras saltavam da minha boca enlouquecidas, sem que necessariamente fizessem sentido.
Amanhã completo 18 meses. Estou afoita para visitar o tal pediatra. Quero ter o prazer de desafiá-lo com um NÃO e um XIM (sim) quando me der na telha. Já sou capaz de formar pequenas frases de três palavras (como por exemplo, para dizer que PAPAI foi BALHA para comprar PÃO), pedir para ir ao penico, avisar quando estou com fome ou quando quero a mamãe ou um banho. Não contei, mas dizem os especialistas que já sou capaz de acercar-me de quase 200 palavras... e isso é só o começo! Também aprendi a tirar o meu prato (plástico) da mesa e levá-lo até a pia da cozinha, jogar o potinho do iogurte no lixo e passar um pano nos móveis para ajudar a mamãe. Quando quero, até guardo meus brinquedos no lugar. Gosto de imitar os meus familiares e alguns personagens dos desenhos animados. Meus pais dizem que isso é muito perigoso e estão cautelosos com relação ao que fazem ou dizem. Adoro meus livros e até já escrevo bilhetes para a minha tia Bibi. E a personalidade marcante? Antagonismo! Inverdade! Tudo intriga da oposição!



segunda-feira, 4 de abril de 2016

Alice

Um mês atrás, no shopping, um menininho nos abordou.
- Quantos anos ela tem?- perguntou, se referindo à Alice.
Eu respondi:
- 7 meses.
- Eu perguntei ANOS- ele insistiu.
- Ela ainda não tem 1 ano.
- Então ela tem 0 anos?
- Sim...
- Nossa... eu tenho 4! Ela tem irmã?
- Não...
- Ahhhhhhhhh... se ela tivesse uma irmã... - respondeu paquerando-a.
Ri muito da esperteza do molequinho, mas fiquei assustada, olhando para a minha bebê, observando-a tão sapeca, tão ativa. Ela já senta, levanta, agora até engatinha... Ri, experimenta tudo o que vê, fica eufórica quando encontra algum animalzinho, mexe com as pessoas na rua. As roupas que veste já são tamanho 1 ou 2, fraldas XG. Come com prazer suas papinhas, mas morre de vontade de experimentar a comida que papai e mamãe comem. De um dia para outro, as calças ficam pequenas, as blusas apertadas, os vestidos não entram e os sapatinhos não fecham...
É por isso, que quando alguém me diz: "deixa ela chorar no berço", "esta menina está muito agarrada a você", "você não pode deixá-la dormir na sua cama", eu faço cara de paisagem e ignoro.
Pois, eu sei que num piscar de olhos, ela vai deixar de ser um bebê. Já as louças na pia, as roupas para lavar e passar, a casa para limpar continuarão a existir. Mas, a Alice, ah, meu Deus, ela vai crescer...